Set 032011
 

CONVERSA COM JOSÉ NASCIMENTO por Carlos Melo Ferreira (Jornal dos Encontros Cinematográficos 2011)

JOSÉ NASCIMENTO
1947 | Lisboa | Portugal

JoseNascimento

Biografia:
Inicia-se na realização para televisão, após a Revolução de 25 de Abril é sócio fundador da Cooperativa de Cinema Experimental Cinequipa. Dedica-se também à realização de documentários. Durante alguns anos rege a cadeira de Montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e trabalha na área de montagem e na assistência de realização de vários filmes.
Realiza a sua primeira longa-metragem em 1986. O filme, o Repórter x.

Filmografia:
2006 – Lobos
2003 – Rádio Relâmpago
2001 – A Hora da Morte
2000 – Tarde Demais
1989 – Mar à Vista
1987 – Repórter X
1978 – Julho no Baixo Alentejo
1977 – Terra de Pão, Terra de Luta
1976 – Pela Razão Que Tem.

 

CONVERSA COM JOSÉ NASCIMENTO por Carlos Melo Ferreira (Jornal dos Encontros Cinematográficos 2011)

Como é que chegou ao cinema?

No início dos anos 70 um amigo meu, o Paulo Gil, perguntou-me se queria trabalhar como assistente de realização no filme “Perdido por cem…” de António-Pedro Vasconcelos, o que obviamente aceitei (estava na mesma altura a fazer o serviço militar nos Serviços Cartográficos do Exército). Mais tarde, comecei a trabalhar como assistente de realização, produção e montagem, nos programas Ensaio e Impacto, produzidos por João Martins para os canais 1 e 2 da RTP. Pouco depois João Martins integra uma empresa, a Planigrafe, com a qual o grupo de trabalho, a equipa de cinema, entra em conflito. Desta luta forma-se imediata- mente a seguir ao 25 de Abril a cooperativa de cinema CINEQUIPA, que foi uma das responsáveis pelas primeiras imagens do 25 de Abril, no Largo do Carmo.

Tem na sua filmografia dois documentários, “terra de pão, terra de luta” (1977) e “Julho no baixo alentejo” (1978), que são qualificados como “cinema militante”. Qual é o significado que lhes atribui?

Da luta dentro da empresa Planigrafe surgiu uma consciência política e uma solidariedade que se estendeu às lutas dos outros trabalhadores portugueses contra a injustiça e o predomínio da mentalidade salazarista nas estruturas sociais do nosso país.

Porque realiza a sua primeira longa-metragem de ficção, “repórter X” (1987), tão tardiamente?

Depois do processo político (a revolução) ter sido neutralizado, há uma recessão na colaboração das cooperativas de cinema, sobretudo da Cinequipa e da Cinequanon, com a RTP. Pouco depois, e com as dificuldades económicas a fazerem pressão sobre a capacidade de produção das cooperativas, há uma crise subsequente e um desmembramento dos associados das cooperativas. Nessa altura, passo a trabalhar como freelancer para garantir a sobrevivência do meu agregado familiar. Só então mais tarde é que surge a oportunidade de fazer o meu primeiro filme de ficção “Reporter X”, a partir de uma conversa com o José Matos-Cruz.

Porque fez até agora tão poucos filmes para cinema?

Isto de fazer cinema em Portugal é muito complicado… Para me manter independente dos lobies políticos do final dos anos 70 e dos lobies culturais dos anos 80 e seguintes tive que pagar um preço. Para além disso os critérios de atribuição de subsídios são subjectivos e, em geral, não levam em conta a experiência, o CV.

Fale-me um pouco de “tarde Demais”, que penso ser o seu filme mais importante até hoje. Qual a origem do projecto? Como decorreram as filmagens? e o trabalho com os actores?

O filme parte de um episódio verídico, de que tive conhecimento, através de um amigo, o Luís Mesquita, de um artigo publicado na revista Expresso  pela jornalista Laurinda Alves. Soube, entretanto, que um dos pescadores que morreu era o pai da Fernanda Fragateiro, artista plástica de quem sou amigo.

Fiz uma pesquisa e escrevi o argumento com o João Canijo, adaptando a história para o cinema. O filme foi produzido pelo Paulo Branco e começou por ter dois directores de produção com os quais as coisas correram mal. Primeiro falaram-me em 9 semanas de rodagem e acabei por ter apenas 7, mas as filmagens correram muito bem, sem conflitos e com o empenho total de toda a equipa. Na altura, estava em Portugal uma equipa inglesa a rodar um filme que se passava numa caravela. Contactei o especialista pelas filmagens marítimas e tive com ele uma conversa que era para durar o tempo de um café e acabou por se estender até às 3 da manhã, o que me permitiu organizar a rodagem de “Tarde Demais” em diferentes locais do Tejo: numa praia de Alcochete, no cais do Parque da Nações e no Mar da Palha.

Além de realizador, tem feito a montagem de vários filmes portugueses de diferentes realizadores. Qual a importância que atribui à montagem no cinema e nos seus filmes?

A montagem é uma das fases mais importantes, senão a mais importante, da criação de um filme. É o lugar onde se pode ganhar ou perder um filme.

Quais as influências cinematográficas que reconhece ter recebido? De quem se sente mais próximo no cinema português?

Influências? Sobretudo dos grandes realizadores da história do Cinema. De quem me sinto mais próximo? Do José Álvaro Morais, de quem gostava muito.

Porque escolheu o filme “Jaime”, de António Reis, para ser apresentado nestes Encontros Cinematográficos da Guarda?

Podia ter escolhido “Uma Abelha na Chuva”, do Fernando Lopes ou o “O Rio do Ouro”, do Paulo Rocha, mas o filme que mais me marcou nos meus verdes anos foi o “Jaime” do António Reis pela simplicidade na abordagem e na capacidade de aprofundamento sobre a personagem do Jaime.

O que pensa do actual cinema português?

Há hoje em dia um cinema mais artístico e mais comunicativo, mas penso que falta ao cinema português dar ainda mais um passo.

Tem projectos para o futuro?

Claro que sim. Tenho vários, um dos quais para ser rodado no Brasil.