Mar 302000
 

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Intenso e envolvente drama humano sobre uma trágica história de sobrevivência.
Numa madrugada fria e chuvosa quatro homens numa pequena embarcação de pesca naufragam no meio do Tejo com um rombo no casco. Unem esforços para tentar evitar que a água inunde o barco e acabam encalhados numa coroa de areia. Sem rádio nem sistemas de alerta esperam pela maré baixa para tentar alcançar a margem, 
que parece mais perto do que na realidade está, como em breve irão amargamente descobrir.

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Nascimento constrói um surpreendente drama intimista no meio de uma situação de alta tensão e perturbadora angústia, quase como um thriller psicológico, em que quatro seres humanos enfrentam a morte na noite e no meio de um rio que os pode engolir para sempre. Com Vítor Norte, Carlos Santos, Nuno Melo e Adriano Luz nos principais papeis de um filme duro, sensível e amargo como são todas as tragédias pessoais.

Tarde Demais esconde uma formidável lição que estes dias tomaram de uma completa e infeliz actualidade. A constatação simples de que somos todos náufragos – uns mais do que outros, é verdade – num sistema onde os salva-vidas não saem, os helicópteros não voam e os milagres são servidos a domicílio pelos conta-gotas de soro televisivo. Brilhante e justo, Tarde Demais acabou por ser, se calhar involuntariamente (ou talvez não), um filme urgente e pedagógico: uma verdadeira lição de selvagem sobrevivência, no eterno Mar da Palha, onde vivemos e onde não parece existir qualquer hipótese de socorro ou remissão. É por isso que a canoa Era Assim – nome providencial – é o nosso (mais) verdadeiro Titanic.

João Mário Grilo, Visão, 30/03/00