Apr 142017
 

Silêncios do Olhar – 2 de maio na Cinemateca Portuguesa

Sala M. Félix Ribeiro | Ter. [2] 21:30
SILÊNCIOS DO OLHAR
de José Nascimento
Portugal, 2017 – 104 min | M/12
com a presença de José Nascimento
Uma homenagem de José Nascimento a um dos realizadores
que mais saudades deixou no cinema português: José Álvaro
Morais (1943-2004). SILÊNCIOS DO OLHAR, exibido no
doclisboa 2016, conta com a participação de testemunhos de
colaboradores diretos e pessoas que privaram com o realizador
de O BOBO (1987) e QUARESMA (2003).

 

Folha de Sala

SILÊNCIOS DO OLHAR

Com o Zé Álvaro, vivi as ilusões e os sonhos de uma geração marcada por uma profunda transformação social em Portugal. Tivemos uma proximidade e uma cumplicidade que nos uniu no prazer do cinema e da vida.

Há uma correspondência entre a vida e a obra, um retrato inédito, intimo e discreto, uma sólida teia de amizades e amores que sustentaram a existência do Zé Álvaro durante os momentos mais “áridos” da sua vida profissional.

Refiro-me obviamente ao “O BOBO” (1979-1987), filme distinguido em Locarno com o Leopardo de Ouro, obra impar no cinema português, que contém a diversidade e complexidade das relações humanas: a família, a opressão, a rebeldia e a libertação, temas omnipresentes que revelam crises existenciais e que pontuaram a vida de um cineasta reservado, obsessivo, culto e complexo, num “ país que agarra as pessoas com tanta força ao mesmo tempo que lhes dá vontade de fugir”.

Este filme não quis ser apenas uma homenagem póstuma a um realizador prematuramente desaparecido, nem tão pouco ficar-se pelo trabalho meramente biográfico. Quis ser, fundamentalmente, um projecto de descoberta da forma como a obra se polarizou em torno de si próprio, estabelecendo uma “arqueologia” que revela, na intimidade, as opções estéticas e afectivas da sua obra, bem como o reflexo da diluição da sua personalidade em cada filme.

Na tessitura dos seus filmes fluem temas que estabelecem pontos de consonância e continuidade: do Cantigamente Nº3 perpassou a musicalidade para os travellings do Bobo, como que numa “orquestração” de elipses e de organização estrutural da linguagem e que regressa em diferentes níveis no Peixe Lua, ou na representação do eros mítico, das cenas ligadas ao toureio, presentes em Zéfiro e Peixe Lua, como que provando a existência de um processo fantasmático que habita os filmes do Zé Álvaro.

A paixão pela montagem, lugar último da criação cinematográfica, era para o Zé o meio ideal para o “quebra cabeças” das espirais narrativas, do sentido elíptico da escrita, da rima entre actores, guarda-roupa, cenografia, luz e movimentos de câmara, matérias com que se fazem os filmes.

Singularmente o Zé Álvaro era, mais que um grande contador de histórias, um ouvinte confesso das histórias dos outros, tendência fundada na cinefilia obsessiva [ um “rato de cinemateca” ], referências que se descobrem nos seus filmes, num traço fino de Visconti, numa recusa quase Buñueliana ao neo-realismo, no erotismo de Pasolini ou como subtilmente anuncia a sua própria morte em Quaresma; representações simbólicas que revelam o secretismo imanente na obra do Zé Álvaro.

Bem hajas Zé Álvaro, pelo “rasto luminoso” que deixaste no Cinema Português!

Lisboa 2 de maio de 2017
José Nascimento