Abr 252020
 

TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA / 1977

Por Cinemateca  · em Abril, 2020


TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA / 1977

um filme de José Nascimento

Realização: José Nascimento Fotografia: Vítor Estevão, Alexandre Gonçalves Som: Carlos Alberto Lopes, Jorge L. Gonçalves Montagem: José Nascimento, Monique Rutler, Vítor Matias Ferreira Texto: Vítor Matias Ferreira Locução: Joaquim Furtado Colaboração: Ricardo Costa, Fausto Giacconi Música: “Marcolino” (Fausto), “Saias” (Sheila, Vitorino), “Greve de um Dia de Verão” (Vitorino), “Tens a Força dos Ventos”, “Balada Para Catarina Eufémia” (Zeca Afonso), “Tralhoada” (popular, M. Giacometti), “Moda do Varejo” (popular”, “Já Deixei o Alentejo” (popular, Grupo Coral da Vidigueira).

Produção: Cinequipa – Grupo de Cinema Experimental (Portugal, 1977) Produção Executiva: João Faria Aboim, Gabriela Cerqueira Cópia: Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema (a partir de material 16 mm, preto-e-branco e cor, 68 minutos) Primeiras exibições na Cinemateca: Julho de 1980 (“Panorama do Cinema Português”); 16 de Abril de 1984 (“25 de Abril – Imagens”) Primeira exibição da cópia preservada em 2001: 6 de Abril de 2004 (“Abril depois de Abril”| Abrir os Cofres”).

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TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA faz parte das produções politicamente empenhadas do núcleo de filmes que na História do cinema português convencionou chamar-se “Cinema de Abril” remetendo para a ebulição revolucionária e pós-revolucionária de 1974. A longa-metragem realizada por José Nascimento para a Cinequipa reveste hoje o valor de um documento, tanto das convulsões que se viviam como do cinema que se fazia em Portugal.

Lembre-se que a Cinequipa, ligada aos irmãos João e Fernando Matos Silva, foi uma das cooperativas de cineastas formadas para registar os acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril de 1974. Filmado dois anos depois dessa data, já num momento em que as cisões sociais e políticas atravessavam a sociedade portuguesa, TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA foca muito precisamente o processo político da Reforma Agrária partindo da ideia do slogan com o qual este se identificou, e que passou a referenciá-lo historicamente: “A terra a quem a trabalha.” Neste filme, em que os créditos são fornecidos no genérico de fim que o conclui, a assinatura colectiva dos primeiros trabalhos da Cinequipa em 1974 e 1975, não se perdendo, é ligeiramente esbatida, como em “folha” anterior sobre o mesmo filme se notava.

Lembre-se ainda que nos dois primeiros anos de actividade, a Cinequipa produziu sobretudo curtas e médias metragens, a primeira e mais conhecida das quais é CAMINHOS DA LIBERDADE. As primeiras longas-metragens da cooperativa surgiriam em 1976: CAVALGADA SEGUNDO S. JOÃO, O BAPTISTA, de João Matos Silva, e PELA RAZÃO QUE TÊM, de José Nascimento. Seguiram-se CONTRA AS MULTINACIONAIS, TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA; duas obras de Fernando Matos Silva em 78 e 80  – O MEU NOME É… e ACTO DOS FEITOS DA GUINÉ; em 81, ANTES A SORTE QUE TAL MORTE, de João Matos Silva. José Nascimento estava pois ligado à Cinequipa e tinha nesse mesmo ano de 1977 participado na produção colectiva CONTRA AS MULTINACIONAIS.

TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA inscreve-se explicitamente no contexto militante da maioria da produção cinematográfica desses anos de e post Revolução, conduzido por um comentário em off – da autoria de Vítor Matias Ferreira, pela voz de Joaquim Furtado – que procura fundamentar histórica, social e politicamente a formação do sistema latifundiário do Alentejo e descrever a conquista das terras pelas massas populares a seguir ao 25 de Abril e a respectiva organização colectiva do trabalho da sua exploração. Guiado por esse comentário, simbolicamente precedido pela inscrição na imagem das palavras de um chefe índio em 1854 que basicamente postula que “a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra”, o retrato desse controverso processo de Reforma Agrária confere um sentido às imagens, obedecendo à lógica de militância inerente ao filme. Ou seja, a posição política que antecede TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA é transparente e assumida como discurso prévio às imagens, que articula pelo comentário em off. Trata-se aqui da demonstração da necessidade de libertação do Alentejo dos “mil anos de servidão” a que foi sujeito pela instauração continuada de um sistema de produção e relações feudais. O objectivo da luta dos trabalhadores agrícolas alentejanos cujas imagens são dadas a ver no tempo presente da acção assume assim a forma de uma luta contra um passado ancestral que culminou nos anos de ditadura salazarista deixando como pesado legado uma situação que simultaneamente afecta o estado da agricultura e as condições de vida dos trabalhadores da região.

Para lá da sua dimensão “interventiva” apoiada num discurso que se apresenta tanto histórico como didáctico (são apontadas razões e é apresentado um diagnóstico da situação passada e presente até que se conclua que “no Alentejo a luta continua”), TERRA DE PÃO, TERRA DE LUTA indica uma consciência propriamente cinematográfica, incorporando elementos de proveniências distintas. Dela participam o trabalho da banda sonora, a montagem de imagens a preto-e-branco e cor captadas em momentos diferentes (incluem-se por exemplo, imagens de festas e caçadas dos “senhores da terra” que remetem para o tempo anterior), e a montagem de depoimentos onde cabem, além dos trabalhadores, os de algumas figuras vindas de outras esferas. Destaquem-se em particular os depoimentos das trabalhadoras, num troço do filme dedicado a retratar a condição discriminatória a que as mulheres trabalhadoras do Alentejo foram especialmente votadas, sendo que um dos seus mais articulados testemunhos é justamente o de uma trabalhadora rural.

Maria João Madeira