Jornal dos Encontros Cinematogr√°ficos 2011

CONVERSA COM JOS√Č NASCIMENTO¬†por Carlos Melo Ferreira (Jornal dos Encontros Cinematogr√°ficos 2011)

JOS√Č NASCIMENTO
1947 | Lisboa | Portugal

JoseNascimento

Biografia:
Inicia-se na realização para televisão, após a Revolução de 25 de Abril é sócio fundador da Cooperativa de Cinema Experimental Cinequipa. Dedica-se também à realização de documentários. Durante alguns anos rege a cadeira de Montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e trabalha na área de montagem e na assistência de realização de vários filmes.
Realiza a sua primeira longa-metragem em 1986. O filme, o Repórter x.

Filmografia:
2006 ‚Äď Lobos
2003 ‚Äď R√°dio Rel√Ęmpago
2001 ‚Äď A Hora da Morte
2000 ‚Äď Tarde Demais
1989 ‚Äď Mar √† Vista
1987 ‚Äď Rep√≥rter X
1978 ‚Äď Julho no Baixo Alentejo
1977 ‚Äď Terra de P√£o, Terra de Luta
1976 ‚Äď Pela Raz√£o Que Tem.

 

CONVERSA COM JOS√Č NASCIMENTO¬†por Carlos Melo Ferreira (Jornal dos Encontros Cinematogr√°ficos 2011)

Como é que chegou ao cinema?

No in√≠cio dos anos 70 um amigo meu, o Paulo Gil, perguntou-me se queria trabalhar como assistente de realiza√ß√£o no filme ‚ÄúPerdido por cem‚Ķ‚ÄĚ de Ant√≥nio-Pedro Vasconcelos, o que obviamente aceitei (estava na mesma altura a fazer o servi√ßo militar nos Servi√ßos Cartogr√°ficos do Ex√©rcito). Mais tarde, comecei a trabalhar como assistente de realiza√ß√£o, produ√ß√£o e montagem, nos programas Ensaio e Impacto, produzidos por Jo√£o Martins para os canais 1 e 2 da RTP. Pouco depois Jo√£o Martins integra uma empresa, a Planigrafe, com¬†a qual o grupo de trabalho, a equipa de cinema, entra em conflito. Desta luta forma-se imediata- mente a seguir ao 25 de Abril a cooperativa de cinema CINEQUIPA, que foi uma das respons√°veis pelas primeiras imagens do 25 de Abril, no Largo do Carmo.

Tem na sua filmografia dois document√°rios, ‚Äúterra de p√£o, terra de luta‚ÄĚ (1977) e ‚ÄúJulho no baixo alentejo‚ÄĚ (1978), que s√£o qualificados como ‚Äúcinema militante‚ÄĚ. Qual √© o significado que lhes atribui?

Da luta dentro da empresa Planigrafe surgiu uma consciência política e uma solidariedade que se estendeu às lutas dos outros trabalhadores portugueses contra a injustiça e o predomínio da mentalidade salazarista nas estruturas sociais do nosso país.

Porque realiza a sua primeira longa-metragem de fic√ß√£o, ‚Äúrep√≥rter X‚ÄĚ (1987), t√£o tardiamente?

Depois do processo pol√≠tico (a revolu√ß√£o) ter sido neutralizado, h√° uma recess√£o na colabora√ß√£o das cooperativas de cinema, sobretudo da Cinequipa e da Cinequanon, com a RTP. Pouco depois, e com as dificuldades econ√≥micas a fazerem press√£o sobre a capacidade de produ√ß√£o das cooperativas, h√° uma crise subsequente e um desmembramento dos associados das cooperativas. Nessa altura, passo a trabalhar como freelancer para garantir a sobreviv√™ncia do meu agregado familiar. S√≥ ent√£o mais tarde √© que surge a oportunidade de fazer o meu primeiro filme de fic√ß√£o ‚ÄúReporter X‚ÄĚ, a partir de uma conversa com o Jos√© Matos-Cruz.

Porque fez até agora tão poucos filmes para cinema?

Isto de fazer cinema em Portugal é muito complicado… Para me manter independente dos lobies políticos do final dos anos 70 e dos lobies culturais dos anos 80 e seguintes tive que pagar um preço. Para além disso os critérios de atribuição de subsídios são subjectivos e, em geral, não levam em conta a experiência, o CV.

Fale-me um pouco de ‚Äútarde Demais‚ÄĚ, que penso ser o seu filme mais importante at√© hoje. Qual a origem do projecto? Como decorreram as filmagens? e o trabalho com os actores?

O filme parte de um episódio verídico, de que tive conhecimento, através de um amigo, o Luís Mesquita, de um artigo publicado na revista Expresso  pela jornalista Laurinda Alves. Soube, entretanto, que um dos pescadores que morreu era o pai da Fernanda Fragateiro, artista plástica de quem sou amigo.

Fiz uma pesquisa e escrevi o argumento com o Jo√£o Canijo, adaptando a hist√≥ria para o cinema. O filme foi produzido pelo Paulo Branco e come√ßou por ter dois directores de produ√ß√£o com os quais as coisas correram mal. Primeiro falaram-me em¬†9 semanas de rodagem e acabei por ter apenas¬†7, mas as filmagens correram muito bem, sem conflitos e com o empenho total de toda a equipa. Na altura, estava em Portugal uma equipa inglesa a rodar um filme que se passava numa caravela. Contactei o especialista pelas filmagens mar√≠timas e tive com ele uma conversa que era para durar o tempo de um caf√© e acabou por se estender at√©¬†√†s 3 da manh√£, o que me permitiu organizar a rodagem de ‚ÄúTarde Demais‚ÄĚ em diferentes locais do Tejo: numa praia de Alcochete, no cais do Parque da Na√ß√Ķes e no Mar da Palha.

Al√©m de realizador, tem feito a montagem de v√°rios filmes portugueses de diferentes realizadores. Qual a import√Ęncia que atribui √† montagem no cinema e nos seus filmes?

A montagem √© uma das fases mais importantes, sen√£o a mais importante, da cria√ß√£o de um filme. √Č o lugar onde se pode ganhar ou perder um filme.

Quais as influências cinematográficas que reconhece ter recebido? De quem se sente mais próximo no cinema português?

Influ√™ncias? Sobretudo dos grandes realizadores da hist√≥ria do Cinema. De quem me sinto mais pr√≥ximo? Do Jos√© √Ālvaro Morais, de quem gostava muito.

Porque escolheu o filme ‚ÄúJaime‚ÄĚ, de Ant√≥nio Reis, para ser apresentado nestes Encontros Cinematogr√°ficos da Guarda?

Podia ter escolhido ‚ÄúUma Abelha na Chuva‚ÄĚ, do Fernando Lopes ou o ‚ÄúO Rio do Ouro‚ÄĚ, do Paulo Rocha, mas o filme que mais me marcou nos meus verdes anos foi o ‚ÄúJaime‚ÄĚ do Ant√≥nio Reis pela simplicidade na abordagem e na capacidade de aprofundamento sobre a personagem do Jaime.

O que pensa do actual cinema português?

Há hoje em dia um cinema mais artístico e mais comunicativo, mas penso que falta ao cinema português dar ainda mais um passo.

Tem projectos para o futuro?

Claro que sim. Tenho v√°rios, um dos quais para ser rodado no Brasil.

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