TARDE DEMAIS РÀ pala de Walsh

TARDE DEMAIS РÀ pala de Walsh

À pala de Walsh

CR√ďNICAS,¬†ECSTASY OF GOLD

Maré baixa

Como uma das mais f√°ceis manobras para destruir um filme √© ench√™-lo de ru√≠do sonoro a desprop√≥sito, vamos escrever umas quantas linhas sobre uma daquelas obras que conseguem o pequeno milagre de ter ru√≠do sonoro com todo o prop√≥sito. Chama-se¬†Tarde Demais¬†(2000), foi realizada pelo Jos√© Nascimento, e √© um not√°vel exemplo de ‚Äúcinema imersivo‚ÄĚ com o recurso a um or√ßamento de cem paus.

Tarde Demais

Tarde Demais, com argumento de Nascimento e do Jo√£o Canijo, parte de uma hist√≥ria ocorrida em 1995, quando um grupo de pescadores morreu no Mar da Palha, √°s portas de Lisboa. Embora sem martelar de forma incessante as nossas pobres consci√™ncias, nota-se a subtil preocupa√ß√£o de Nascimento em contrastar a selvajaria da situa√ß√£o limite dos pescadores e a civilidade da cidade ali t√£o perto, atrav√©s do recurso regular aos planos da ponte Vasco da Gama e de Lisboa no horizonte, lugares de quimera inacess√≠vel a estes homens. Em 1995, o surrealismo dever√° ter sido ainda maior: uma ponte ‚Äúmoderna√ßa‚ÄĚ em constru√ß√£o, a Expo a ganhar forma por entre andaimes e cimentos, uma Lisboa oriental a rejuvenescer, e, ao lado, uns desgra√ßados a perecerem em baixo mar.

Quando o filme tem o seu in√≠cio, j√° o naufr√°gio da embarca√ß√£o teve lugar, e o que se v√™ a partir da√≠ e pelo menos durante metade da dura√ß√£o do filme, √© algo que desafia a credulidade, remetendoTarde Demais¬†para a categoria de grande filme portugu√™s na categoria ‚ÄúFic√ß√£o Cient√≠fica no tri√Ęngulo P√≥voa de Santa Iria/Alcochete/Lisboa‚ÄĚ, com um cen√°rio paisag√≠stico a rivalizar com os falsos planetas mar√≠timos do¬†Interstellar¬†(2014) do Christopher Nolan, ainda por cima com essa pequena lembran√ßa do or√ßamento do¬†Tarde Demais¬†mal conseguir pagar os atacadores dos¬†tennisdo McConaughey (o¬†Interstellar¬†√© o melhor filme do Nolan). Os planos de homens (e de super homens, no caso do V√≠tor Norte) a andarem em pleno mar s√£o mat√©ria para se parar o filme, tirar os √≥culos, limp√°-los com uns toalhetes, voltar a coloc√°-los e retomar a vis√£o do filme.

Os variados sons da água são tão cristalinos que damos por nós a ir à procura da toalha mais próxima.

Nesta primeira metade do filme do Jos√©, onde o Homem e a Natureza se encontram em estado primitivo (com o bet√£o a um quil√≥metro de dist√Ęncia), ainda mais impressionantes que a dimens√£o alien√≠gena das imagens s√£o a banda de som e a banda sonora original composta pelo Nuno Rebelo, m√ļsico que, curiosa e ironicamente, tinha sido o autor do famoso ‚ÄúPangea‚ÄĚ, tema oficial da Expo 1998. Os variados sons da √°gua s√£o t√£o cristalinos que damos por n√≥s a ir √† procura da toalha mais pr√≥xima. Se isto estivesse em 7.1, ter√≠amos, basicamente, pessoas a fugir das salas da ‚Äúmagia da tela‚ÄĚ ou a partirem os ecr√£s da ‚Äúmagia do televisor‚ÄĚ, com medo de inunda√ß√Ķes caseiras. E ainda h√° quem se queixe, de forma rotineira, do som dos filmes portugueses. Uma maravilha impressionista, deleitando ouvidos e restante corpo. Ainda bem que a chuva j√° se foi.

Harmoniosamente acoplada √°s sonoridades mar√≠timas, est√° a m√ļsica de Nuno Rebelo, incessante, √©pica, brutal. O falecido e saudoso Fernando Magalh√£es, cr√≠tico musical do¬†P√ļblico, certamente que nos poderia ajudar a classificar e a enquadrar os ritmos de Rebelo, mas o que se ouve em¬†Tarde Demais¬†√© algo que um leigo com um m√≠nimo de presun√ß√£o poderia catalogar como ‚Äúeletr√≥nica abstrata‚ÄĚ, que transmite uma urg√™ncia total √†s ac√ß√Ķes, por m√≠nimas que sejam, dos pescadores em luta contra √°gua, frio e ostras. Que a sua constante presen√ßa n√£o esmague tudo √† volta, √© grande elogio n√£o s√≥ para Rebelo, como para a edi√ß√£o de Nascimento e Jo√£o Braz, capaz de, na corda bamba, tecer as diferentes sensibilidades sonoras sem perigo de derrocada. Sonoplastia de alto gabarito.

Embora¬†Tarde Demais¬†perca algum do seu foco quando troca o mar pela terra, enveredando por terrenos mais convencionais de ‚Äúvamos salvar o pessoal!‚ÄĚ, n√£o deixa de se constituir como um dos melhores filmes portugueses de ‚Äúg√©nero‚ÄĚ, se nos √© permitida tamanha e redutora designa√ß√£o. E para al√©m desta dimens√£o estritamente cinematogr√°fica, h√° sempre essa curiosidade de vermos neste filme de Jos√© Nascimento uma pe√ßa de √©poca, um epis√≥dio em contram√£o do ‚Äúesp√≠rito optimista‚ÄĚ que ainda se vivia, moderadamente, nos primeiros tempos ap√≥s a festa da Expo. E acabado este artigo, vamos voltar ao conserto das redes de pesca.

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