{"id":2289,"date":"2023-09-13T15:19:00","date_gmt":"2023-09-13T15:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/?p=2289"},"modified":"2024-04-29T15:02:46","modified_gmt":"2024-04-29T15:02:46","slug":"tarde-demais-terror-tragico-maritimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/tarde-demais-terror-tragico-maritimo\/","title":{"rendered":"\u201cTarde Demais\u201d: terror tr\u00e1gico-mar\u00edtimo"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\">&#8220;\u00c0 Pala de Walsh&#8221;<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">por&nbsp;<a href=\"https:\/\/apaladewalsh.com\/author\/rmpvlx\/\">Ricardo Vieira Lisboa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Revisto agora, mais de duas d\u00e9cadas depois da sua estreia e no contexto do Festival de Cinema de Terror de Lisboa, o Motelx,&nbsp;<strong>Tarde Demais<\/strong>&nbsp;(2000), de Jos\u00e9 Nascimento, apresenta-se como um dos mais aflitivos, perturbadores e inc\u00f3modos filmes do cinema portugu\u00eas. Ou, pelo menos, os seus primeiros 40 minutos s\u00e3o das coisas mais angustiantes que por esta terra j\u00e1 se filmou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/screen-shot-2014-01-25-at-1-23-59-am.png?w=700&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-81070\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Tarde Demais<\/strong>&nbsp;(2000) de Jos\u00e9 Nascimento<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 Nascimento come\u00e7ou a trabalhar ainda antes do 25 de Abril no grupo que produzia e realizava o programa de cariz cultural&nbsp;<strong>Ensaio<\/strong>, para a RTP \u2013 que produziu e realizou igualmente v\u00e1rios epis\u00f3dios da s\u00e9rie&nbsp;<strong>Impacto<\/strong>. Este grupo, desfeito no final de 1973 por desentendimentos com os \u00f3rg\u00e3os diretivos do canal p\u00fablico, daria origem, logo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o, \u00e0 cooperativa Cinequipa, dinamizada por Fernando Matos Silva e o irm\u00e3o, Jo\u00e3o Matos Silva. Jos\u00e9 Nascimento e Monique Rutler eram os jovens que se juntavam \u00e0 experi\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o coletivas, t\u00edpica nesses tempos de PREC. Ser\u00e1, portanto, no \u00e2mbito das s\u00e9ries&nbsp;<strong>Nome Mulher<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>Ver e Pensar<\/strong>&nbsp;que Nascimento come\u00e7a a exercitar a m\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o, ele que era, acima de tudo, um montador (exatamente como Rutler, que come\u00e7a igualmente na montagem e se lan\u00e7a na realiza\u00e7\u00e3o de forma pontual nestas s\u00e9ries de pendor pedag\u00f3gico-revolucion\u00e1rio). E, ainda sob o chap\u00e9u da Cinequipa, realiza dois importantes document\u00e1rios militantes,&nbsp;<strong>Terra de P\u00e3o, Terra de Luta&nbsp;<\/strong>(1978) e<strong>&nbsp;\u2026Pela Raz\u00e3o Que T\u00eam&nbsp;<\/strong>(1976). A sua rela\u00e7\u00e3o com a cooperativa termina ap\u00f3s a turbulenta rodagem de&nbsp;<strong>Guerra de Mirandum&nbsp;<\/strong>(1981), momento em que lan\u00e7a, com Augusto M. Seabra, o fundamental&nbsp;<strong>Ecran<\/strong>, magazine televisivo sobre cinema feito e mostrado em Portugal que muito embora tenha sido um projeto de curta dura\u00e7\u00e3o (teve emiss\u00e3o durante apenas seis meses, num total de 11 epis\u00f3dios), produziu um profundo e relevante pensamento sobre o estado da produ\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o de cinema neste pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dedicando-se primeiramente \u00e0 montagem durante a d\u00e9cada de 1980 (trabalha com Jos\u00e9 \u00c1lvaro de Morais \u2013 ao qual dedicaria recentemente o document\u00e1rio&nbsp;<strong>Sil\u00eancios do Olhar&nbsp;<\/strong>[2016] \u2013, Jos\u00e9 de S\u00e1 Caetano, Jorge Silva Melo ou Lu\u00eds Filipe Rocha), ser\u00e1 juntamente com o ent\u00e3o muito jovem Edgar P\u00eara (acabado de sair da Escola de Cinema do Conservat\u00f3rio Nacional e que co-assina o argumento) que desenvolver\u00e1 o curioso, mas essencialmente falhado,&nbsp;<strong>Rep\u00f3rter X&nbsp;<\/strong>(1986), vers\u00e3o \u201cjames-bond-izada\u201d da vida do terrorista liter\u00e1rio Reinaldo Ferreira, segundo uma perspetiva estilizada, muito devedora da est\u00e9tica da banda desenhada (mas sem nunca realmente assumir essa sua iconoclastia \u2013 como P\u00eara viria a fazer mais tarde, em nome pr\u00f3prio).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante os primeiros 40 minutos de filme somos lan\u00e7ados, sem eira nem beira (literalmente), no meio de um rio de \u00e1guas baixas mas geladas, cheias de correntes, fortes ondula\u00e7\u00f5es, s\u00fabitos fund\u00f5es, ostras cortantes e outros tantas agruras. O que Jos\u00e9 Nascimento encena n\u00e3o \u00e9 uma tentativa de salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um mart\u00edrio: aqueles pescadores sofrem para expiar os pecados de uma \u201cna\u00e7\u00e3o mar\u00edtima\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s uma primeira obra, Nascimento \u00e9 desafiado por Fernando Lopes para participar na s\u00e9rie de telefilmes&nbsp;<strong>Fados<\/strong>, para a RTP. Esta iniciativa fazia parte de um programa para o cinema portugu\u00eas que encontrava no financiamento do canal p\u00fablico uma forma de fomentar o aparecimento de jovens realizadores, numa altura em que os apoios do ent\u00e3o ICAM n\u00e3o distinguiam entre primeiras, segundas ou trig\u00e9simas obras. No \u00e2mbito da s\u00e9rie&nbsp;<strong>Fados<\/strong>, que teria as suas emiss\u00f5es ao longo de 1989, Joaquim Leit\u00e3o faz o seu segundo filme,&nbsp;<strong>Voltar<\/strong>, V\u00edtor Gon\u00e7alves faz o seu segundo (e pouco visto) filme,&nbsp;<strong>Meia Noite<\/strong>, o mesmo com&nbsp;<strong>Flores Amargas<\/strong>&nbsp;de Margarida Gil, e Cristina Hauser faz a sua primeira longa, ap\u00f3s tr\u00eas curtas,&nbsp;<strong>Longe<\/strong>. A estes jovens realizadores juntavam-se outros tantos \u201cda casa\u201d, isto \u00e9, realizadores a contrato com a RTP, entre eles Jaime Campos, Alfredo Tropa e Lu\u00eds Filipe Costa. O telefilme de Nascimento (que teve uma rodagem complicada e um processo de montagem doloroso) intitula-se&nbsp;<strong>Mar \u00e0 Vista<\/strong>&nbsp;e, de certo modo, antecipa&nbsp;<strong>Tarde Demais<\/strong>, s\u00f3 que em sentido inverso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Igualmente coescrito com Edgar P\u00eara [repare-se como quase todas as longa-metragens de fic\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Nascimento \u2013 para cinema ou para televis\u00e3o \u2013 t\u00eam argumentos coassinados por outros realizadores: Jo\u00e3o Canijo \u00e9 coargumentista de&nbsp;<strong>Tarde Demais<\/strong><em>,&nbsp;<\/em>Jo\u00e3o M\u00e1rio Grilo de&nbsp;<strong>Hora da Morte<\/strong>&nbsp;(2001), Alberto Seixas Santos de&nbsp;<strong>Lobos&nbsp;<\/strong>(2007), Ana Pissarra de&nbsp;<strong>Casa Flutuante&nbsp;<\/strong>(2022)],&nbsp;<strong>Mar \u00e0 Vista<\/strong>prossegue um certo tom c\u00f3mico e autorreflexivo que o cinema de Nascimento perderia com o fim da parceria com P\u00eara. Hist\u00f3ria de piratas, tesouros afundados na costa do Algarve, mi\u00fados fugidos de casa dos pais, traficantes de artefactos arqueol\u00f3gicos e desamores urbano-depressivos. Nos seus melhores momentos, h\u00e1 ali qualquer coisa de&nbsp;<strong>Moonfleet<\/strong>&nbsp;(O Tesouro do Barba Ruiva, 1955), de Fritz Lang, quando o realizador se deixa levar na vis\u00e3o infantil dos dois rapazes que olham para o mundo dos adultos com um fasc\u00ednio encantado (paredes meias com os filmes de aventuras e as hist\u00f3rias aos quadradinhos). \u00c9, claro, uma vis\u00e3o m\u00edtica sobre a hist\u00f3ria tr\u00e1gico-mar\u00edtima nacional, fazendo dos m\u00faltiplos naufr\u00e1gios junto \u00e0 costa portuguesa uma fonte inesgot\u00e1vel de especula\u00e7\u00f5es mir\u00edficas, esquecendo que cada imagin\u00e1rio cofre cheio de moedas de ouro corresponde a uma s\u00e9rie, muito real, de cad\u00e1veres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido,&nbsp;<strong>Tarde Demais<\/strong>&nbsp;surge como resposta do realizador a esse imagin\u00e1rio mitol\u00f3gico, quando n\u00e3o mesmo folcl\u00f3rico, sobre a rela\u00e7\u00e3o do pa\u00eds com a sua costa, no caso particular da rela\u00e7\u00e3o dos pescadores portugueses com o mar enquanto entidade de sustento e morte. O filme come\u00e7a, precisamente, num naufr\u00e1gio \u2013 sem explica\u00e7\u00e3o, sem contexto, sem justificativo, apenas o terror de uma morte quase-certa, o frio e o medo que se formam por entre as ondas turvas das \u00e1guas do Tejo numa madrugada cinzenta. Como explicou o realizador, numa nota, \u201cNo frio Dezembro de 1995, li um artigo da Laurinda Alves, na revista&nbsp;<em>O Independente<\/em>, sobre o naufr\u00e1gio de um barco de pesca artesanal no meio do rio Tejo. Dois homens tinham perdido a vida. As circunst\u00e2ncias em que se tinha dado o acidente pareceram-me, no m\u00ednimo, bizarras. As autoridades competentes, embora avisadas, n\u00e3o sa\u00edram imediatamente para o rio para os salvar. Os poucos pescadores, que resistiam \u00e0s normas da CEE para os estu\u00e1rios, n\u00e3o ousaram ir para o mar com a tempestade que estava e a burocracia para fazer sair um helic\u00f3ptero de resgate da base a\u00e9rea do Montijo, indescrit\u00edvel. Isto tudo a dois passos de Lisboa. Estava feito o quadro geral da trag\u00e9dia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/2-2.png?resize=700%2C450&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-81075\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a verdade \u00e9 que pouco importa se a origem do projeto \u00e9, ou n\u00e3o, um&nbsp;<em>fait diver<\/em>, porque durante os primeiros 40 minutos de filme somos lan\u00e7ados, sem eira nem beira (literalmente), no meio de um rio de \u00e1guas baixas, mas geladas, cheias de correntes, fortes ondula\u00e7\u00f5es, s\u00fabitos fund\u00f5es, ostras cortantes e outros tantas agruras. Aquela peregrina\u00e7\u00e3o sobre as \u00e1guas, cheia de tormentos, \u00e9 um espa\u00e7o de limbo, onde cada um daqueles quatro homens est\u00e1 j\u00e1 morto at\u00e9 prova em contr\u00e1rio. O que Nascimento encena n\u00e3o \u00e9 uma tentativa de salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um mart\u00edrio: aqueles pescadores sofrem para expiar os pecados de uma \u201cna\u00e7\u00e3o mar\u00edtima\u201d. Toda a hist\u00f3ria de um povo \u00e9 ali posta em jogo, um jogo de vida ou morte. Toda uma comunidade de marinheiros e pescadores defronta-se com os seus fantasmas. Todas as mitologias douradas s\u00e3o afundadas na lama. Toda a gl\u00f3ria dos navegantes frustra-se numa morte na praia (literalmente). E a imagem heroica dos homens do mar rasga os p\u00e9s na sua pr\u00f3pria teimosia, tenta a sorte \u00e0 custa da desgra\u00e7a do pr\u00f3ximo e perde-se nas correntes, sem que isso mere\u00e7a sequer um apontamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se d\u00favidas houvesse, Jos\u00e9 Nascimento confirmou a dimens\u00e3o aleg\u00f3rica (e nunca metaf\u00f3rica \u2013 porque&nbsp;<strong>Tarde Demais<\/strong>&nbsp;\u00e9 um filme das literalidades, dos corpos diante dos elementos) do projeto em entrevista a Manuel Cintra Ferreira, para o&nbsp;<em>Expresso<\/em>, onde explicita: \u201cLi a reportagem e percebi que estavam reunidas as seguintes coisas: uma ideia de trag\u00e9dia e uma esp\u00e9cie de coment\u00e1rio ir\u00f3nico \u00e0 nossa hist\u00f3ria mar\u00edtima. Na hist\u00f3ria tr\u00e1gico-mar\u00edtima ainda havia grandeza; agora neste naufr\u00e1gio de uma traineira no Mar da Palha todas as raz\u00f5es que levaram \u00e0 perda de vidas humanas me pareciam p\u00edfias, mesquinhas, med\u00edocres\u2026 Contra o passado mitificado era poss\u00edvel contar esta trag\u00e9dia absurda: pescadores que morrem no Mar da Palha, diante de Lisboa, sem socorro, a cinco anos do ano 2000. H\u00e1 qualquer coisa de pol\u00edtico neste meu gesto, sem nunca ter precisado de cair na mensagem, no panfleto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqueles homens, aquela lama e aquela morte anunciada t\u00eam a pot\u00eancia de um coment\u00e1rio sobre o mal-estar de um pa\u00eds, a sua aus\u00eancia de futuro, o seu desespero.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9, pois, mero acaso que o nome do barco dos pescadores seja \u201cEra Assim\u201d. H\u00e1 uma forma de contar o \u201cato dos feitos do mar\u201d que ali se afunda. E o mesmo \u00e9 verdade para o filme. A sua natureza bipartida \u00e9, ela mesma, uma tentativa de complexificar o discurso sobre o passado (neste caso o passado muito recente). Se \u00e9 certo que os primeiros 40 minutos do filme t\u00eam a for\u00e7a devastadora de uma torrente, a viragem para um filme coral (cheios de figuras secund\u00e1rias, de pequenos poderes, de burocracias, chamadas n\u00e3o atendidas, atrasos, mensagens perdidas, desinteresse e desprezo) evita a produ\u00e7\u00e3o de uma hagiografia dos m\u00e1rtires do mar. Al\u00e9m disso, traz a a\u00e7\u00e3o sem espa\u00e7o nem tempo da primeira parte (o recurso gutural aos grandes planos e aos enquadramentos muito picados ou muito contrapicados faz da vastid\u00e3o da paisagem um espa\u00e7o sufocante e claustrof\u00f3bico) para um presente muito concreto: Lisboa p\u00f3s-Expo 98, na ressaca de uma celebra\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica das gl\u00f3rias mitol\u00f3gicas da na\u00e7\u00e3o de descobridores, quando se havia afirmado a integra\u00e7\u00e3o na CEE e se abria a porta ao progresso do novo mil\u00e9nio. Nesse momento exato, com a Ponte Vasco da Gama (!) ao fundo, Jos\u00e9 Nascimento orquestra uma desgra\u00e7a miser\u00e1vel, onde as promessas de futuro esbarram na pobreza e no provincianismo sist\u00e9micos de um pequeno pa\u00eds perif\u00e9rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando frisei a dimens\u00e3o aleg\u00f3rica de&nbsp;<strong>Tarde Demais<\/strong>, fi-lo com um outro filme portugu\u00eas (de terror?) em mente:&nbsp;<strong>A Ca\u00e7a<\/strong>&nbsp;(1963), de Manoel de Oliveira, filme que encenava uma desgra\u00e7a semelhante (um rapaz afundava-se no loda\u00e7al da ria de Aveiro e o desentendimento entre os homens que o tentam salvar garantia a sua morte) [Fugindo ao cinema nacional, Cintra Ferreira citou&nbsp;<strong>Le Salaire de la peur<\/strong>&nbsp;(O Sal\u00e1rio do Medo), de Clouzot, e a mim ocorreu-me o outro inevit\u00e1vel pr\u00e9-<em>survival horror film&nbsp;<\/em>mar\u00edtimo,<em>&nbsp;<\/em><strong>Lifeboat<\/strong>&nbsp;(Um Barco e Nove Destinos, 1944), de Hitchcock]. A rela\u00e7\u00e3o entre o filme de Nascimento e o de Oliveira n\u00e3o \u00e9 meramente cosm\u00e9tica, leia-se, n\u00e3o se fica pela lama. Tanto para Manoel Oliveira como para Jos\u00e9 Nascimento (e parece-me claro que no filme o segundo cita conscientemente o primeiro) aqueles homens, aquela lama e aquela morte anunciada t\u00eam a pot\u00eancia de um coment\u00e1rio sobre o mal-estar de um pa\u00eds, a sua aus\u00eancia de futuro, o seu desespero. Se no tempo de Oliveira o final pessimista n\u00e3o foi aceite pela Censura e o realizador foi obrigado a acrescentar uma cena extra de salvamento. No caso de Nascimento, j\u00e1 sem o l\u00e1pis azul em riste, os dois salvamentos correspondem apenas \u00e0 fidelidade narrativa do&nbsp;<em>fait diver<\/em>. Foi assim que aconteceu, fiquemo-nos por a\u00ed. Mas apesar disso, n\u00e3o h\u00e1 qualquer reden\u00e7\u00e3o para os sobreviventes. N\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a, nem sentido de futuro. Onde Oliveira pensava um regime sem espa\u00e7o para a juventude, em&nbsp;<strong>Tarde Demais&nbsp;<\/strong>h\u00e1 o corpo de um homem de meia-idade, pobre, pai de filhos, hirto, na lama, a olhar o c\u00e9u e a encontrar nas nuvens a miragem de um&nbsp;<em>raccord<\/em>&nbsp;salv\u00edfico. O o\u00e1sis de um europe\u00edsmo que chegou tarde demais, e mal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Tarde Demais<\/strong>&nbsp;ser\u00e1 exibido no pr\u00f3ximo s\u00e1bado,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.motelx.org\/filmes\/tarde-demais\">16 de setembro pelas 19h00 na Sala 3 do Cinema S\u00e3o Jorge<\/a>, no \u00e2mbito do Motelx \u2013 Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, como parte da sec\u00e7\u00e3o Quarto Perdido. A sess\u00e3o integra-se no projeto FILMar, da Cinemateca-Portuguesa, com o apoio do programa EEAGrants 2020-2024.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;\u00c0 Pala de Walsh&#8221; por&nbsp;Ricardo Vieira Lisboa Revisto agora, mais de duas d\u00e9cadas depois da sua estreia e no contexto do Festival de Cinema de Terror de Lisboa, o Motelx,&nbsp;Tarde [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2291,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,23],"tags":[],"class_list":["post-2289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-longas","category-tardedemais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2289"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2292,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2289\/revisions\/2292"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2291"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}