{"id":2304,"date":"2024-09-30T13:42:40","date_gmt":"2024-09-30T13:42:40","guid":{"rendered":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/?p=2304"},"modified":"2024-09-30T13:46:22","modified_gmt":"2024-09-30T13:46:22","slug":"ciclo-jose-nascimento-nem-verdade-nem-mentira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josenascimento.com\/media\/ciclo-jose-nascimento-nem-verdade-nem-mentira\/","title":{"rendered":"CICLO JOS\u00c9 NASCIMENTO \u2013 NEM VERDADE, NEM MENTIRA"},"content":{"rendered":"<p>CICLO<br \/>\nJOS\u00c9 NASCIMENTO \u2013 NEM VERDADE, NEM MENTIRA<\/p>\n<p>H\u00e1 cem anos, nos \u201cloucos anos 20\u201d, uma figura reinava na imprensa nacional, Reinaldo Ferreira, o famoso Rep\u00f3rter X. Mestre do sensacionalismo, detetive dos imagin\u00e1rios, especulador dos temores e dos tabus, a sua curta carreira inspirou Jos\u00e9 Nascimento a realizar a sua primeira longa-metragem de fic\u00e7\u00e3o, apropriadamente intitulada REP\u00d3RTER X. Num dos di\u00e1logos mais inspirados desse filme, quando o rep\u00f3rter \u00e9 questionado sobre a veracidade das suas hist\u00f3rias mirabolantes, este retorque, \u201cn\u00e3o s\u00e3o nem verdade, nem mentira\u201d. Eis o mote da retrospetiva dedicada a Jos\u00e9 Nascimento, realizador multifacetado que, ao longo de uma carreira que j\u00e1 conta com mais de 50 anos, sempre navegou as ambiguidades do real. Dono de uma das filmografias mais ecl\u00e9ticas do cinema portugu\u00eas, a sua obra inclui filmes de \u00e9poca, policiais noirs, dramas realistas, filmes-ensaio, com\u00e9dias musicais, aventuras infantojuvenis, filmes-\u00f3pera, document\u00e1rios etnogr\u00e1ficos, videoclipes, filmes-performance, cinema militante e v\u00e1rias outras formas h\u00edbridas. Em outubro ser\u00e1 poss\u00edvel conhecer melhor a sua vasta e diversa produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo tantos outros, Jos\u00e9 Nascimento come\u00e7ou o seu trabalho em cinema no Departamento de Fotografia e Cinema (os ditos Fotocines) dos Servi\u00e7os Cartogr\u00e1ficos do Ex\u00e9rcito \u2013 por ali passaram v\u00e1rios importantes futuros realizadores, jornalistas e apresentadores de televis\u00e3o. Em 1969, parte para a Guin\u00e9 como t\u00e9cnico de som, juntamente com Jos\u00e9 Lu\u00eds Carvalhosa (imagem) e Fernando Matos Silva (realizador). Regressado a Portugal, trabalhou em televis\u00e3o (programas Ensaio e Impacto) e como assistente de realiza\u00e7\u00e3o (de Ant\u00f3nio-Pedro Vasconcelos, em PERDIDO POR CEM, e de Fernando Matos Silva, em O MAL-AMADO) at\u00e9 que chega a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos. Ser\u00e1 a partir do grupo do ex\u00e9rcito, que se alargara com os trabalhos para televis\u00e3o, que se formar\u00e1 a Cinequipa, a primeira das cooperativas cinematogr\u00e1ficas fundadas ap\u00f3s o 25 de Abril e uma das mais din\u00e2micas durante o per\u00edodo do PREC.<br \/>\nCom a Cinequipa, e de forma coletiva, Jos\u00e9 Nascimento far\u00e1 in\u00fameros document\u00e1rios e programas televisivos de cariz pol\u00edtico, nomeadamente no \u00e2mbito das s\u00e9ries Nome Mulher (programa sobre a luta pelos direitos das mulheres com autoria de Maria Ant\u00f3nia Palla e Ant\u00f3nia de Sousa) e Ver e Pensar. No entanto, Nascimento \u00e9 um dos poucos membros da cooperativa a assinar document\u00e1rios em nome individual, destacando-se \u2026PELA RAZ\u00c3O QUE T\u00caM! e TERRA DE P\u00c3O, TERRA DE LUTA, dois registos preciosos sobre a Reforma Agr\u00e1ria no Alentejo, onde o realizador acompanha o movimento basista que levou \u00e0s primeiras ocupa\u00e7\u00f5es de terras e \u00e0 luta dos camponeses contra o poder dos grandes latifundi\u00e1rios.<br \/>\nAp\u00f3s a desagrega\u00e7\u00e3o da Cinequipa, Jos\u00e9 Nascimento realizou dezenas de programas televisivos e algumas publicidades entre o final dos anos 1970 e meados da d\u00e9cada seguinte (s\u00e9ries como O Caldo de Pedra, Viagem, Bin\u00e1rio, Vamos Jogar no Totobola e Ecran), de onde se destaca o trabalho experimental com a Juventude Musical Portuguesa e um memor\u00e1vel retrato de Manoel de Oliveira que, em 1981, celebrava os seus cinquenta anos de carreira de cineasta (document\u00e1rio correalizado com o cr\u00edtico Augusto M. Seabra e que provocaria o fim da sua rela\u00e7\u00e3o de trabalho com a RTP, por desacordo com a ent\u00e3o dire\u00e7\u00e3o de programas do canal). Foi professor de montagem da Escola de Cinema ao longo de grande parte da d\u00e9cada de 1980, sendo um dos mais reputados montadores portugueses \u2013 montou filmes de Lu\u00eds Filipe Rocha, Jos\u00e9 de S\u00e1 Caetano, Jos\u00e9 \u00c1lvaro Morais, Alberto Seixas Santos, Jo\u00e3o Botelho, Pedro M. Ruivo, S\u00e9rgio Tr\u00e9faut, Fernando Vendrell, entre outros.<br \/>\nAl\u00e9m do j\u00e1 referido REP\u00d3RTER X, onde o realizador reinventa os anos 1920 em Portugal \u00e0 luz do \u201cfr\u00e1gil\u201d cosmopolitismo lisboeta dos anos 1980 (e onde Joaquim de Almeida se estreia no cinema nacional), Jos\u00e9 Nascimento assinou \u2013 at\u00e9 ao dia de hoje \u2013 cinco outras longas-metragens de fic\u00e7\u00e3o. A mais c\u00e9lebre (nacional e internacionalmente) \u00e9 TARDE DEMAIS, filme de sobreviv\u00eancia desesperada que se baseia na hist\u00f3ria ver\u00eddica de um naufr\u00e1gio no Mar da Palha onde morreram dois homens em 1995, nas v\u00e9speras da Expo 98. Depois deste, com argumento coassinado com Alberto Seixas Santos, realiza LOBOS, filme que lan\u00e7a a atriz Catarina Wallenstein e que se apresenta com uma continua\u00e7\u00e3o das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es de TARDE DEMAIS \u2013 a pequenez do ser humano face \u00e0 viol\u00eancia do mundo. Mais recentemente, com CASA FLUTUANTE (coescrito com Ana Pissarra), o realizador regressa ao Alentejo num filme que cruza A Jangada, de Jules Verne, com a Viagem Filos\u00f3fica \u00e0 Amaz\u00f3nia do explorador portugu\u00eas Alexandre Rodrigues Ferreira, estabelecendo um paralelo entre o Rio Amazonas e o Rio Guadiana. Assinou ainda dois telefilmes muito pouco vistos, o elegante retrato da decad\u00eancia do marcelismo, HORA DA MORTE (protagonizado por Rui Morrison, parte da s\u00e9rie Crimes Portugueses escrita por Jo\u00e3o M\u00e1rio Grilo e Paulo Filipe Monteiro), e o divertido R\u00c1DIO REL\u00c2MPAGO (estreia de Nuno Markl na escrita para cinema).<br \/>\nAo longo da \u00faltima d\u00e9cada, o realizador tem-se dedicado ao document\u00e1rio. Assinou um tocante retrato do amigo e colega, o realizador Jos\u00e9 \u00c1lvaro Morais, o filme SIL\u00caNCIOS DO OLHAR \u2013 sendo que, em di\u00e1logo com este filme, apresenta-se igualmente O BOBO, filme de \u00c1lvaro Morais montado por Jos\u00e9 Nascimento. Al\u00e9m desse, correalizou ainda dois document\u00e1rios (com Ana Pissarra) sobre a rela\u00e7\u00e3o de Portugal com as suas antigas col\u00f3nias, nomeadamente atrav\u00e9s do patrim\u00f3nio arquitet\u00f3nico modernista de Mo\u00e7ambique (BRISA SOLAR) e os vest\u00edgios culturais ib\u00e9ricos na Maurit\u00e2nia (NA\u00c7ARA, UMA E OUTRA VEZ, filme que ter\u00e1 a sua estreia absoluta na Cinemateca).<br \/>\nAo longo de quinze sess\u00f5es, que decorrer\u00e3o durante a primeira quinzena de outubro, apresentar-se-\u00e1 uma amostra da extensa filmografia de Jos\u00e9 Nascimento numa l\u00f3gica de choques e continuidades, onde filmes de diferentes \u00e9pocas e produzidos em contextos muito distintos estabelecem correspond\u00eancias mais ou menos inusitadas. Entre trabalhos para cinema, televis\u00e3o, galerias de arte e edi\u00e7\u00f5es de DVD, a obra de Jos\u00e9 Nascimento \u00e9 apresentada em toda a sua heterogeneidade formal e narrativa. Uma obra que leva ao limite as l\u00f3gicas program\u00e1ticas do cinema de autor, propondo um entendimento pragm\u00e1tico e anti-dial\u00e9tico do mundo: nem verdade, nem mentira.<br \/>\nEm novembro, a Cinemateca lan\u00e7ar\u00e1 um cat\u00e1logo sobre a filmografia de Jos\u00e9 Nascimento que contar\u00e1, al\u00e9m de uma extensa entrevista com o realizador, de in\u00fameros documentos e fotografia, com contributos de, entre outros, colaboradores pr\u00f3ximos (atores como Adriano Luz ou V\u00edtor Norte, de m\u00fasicos como Nuno Vieira de Almeida, Lu\u00eds Madureira ou Flak e de colegas, como Bruno de Almeida, Jo\u00e3o Viana ou Fernando Vendrell) e cr\u00edticos e programadores de cinema (Ant\u00f3nio Roma Torres, Francisco Ferreira, Lu\u00eds Miguel Oliveira, Maria Jo\u00e3o Madeira, Ricardo Vieira Lisboa ou Vanessa Rato). O lan\u00e7amento, agendado para dia 29 de novembro, ser\u00e1 seguido pela exibi\u00e7\u00e3o da nova c\u00f3pia digital restaurada de REP\u00d3RTER X. O realizador acompanhar\u00e1 as v\u00e1rias sess\u00f5es do Ciclo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CICLO JOS\u00c9 NASCIMENTO \u2013 NEM VERDADE, NEM MENTIRA H\u00e1 cem anos, nos \u201cloucos anos 20\u201d, uma figura reinava na imprensa nacional, Reinaldo Ferreira, o famoso Rep\u00f3rter X. 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