{"id":1737,"date":"2016-06-05T12:47:30","date_gmt":"2016-06-05T12:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/?p=1737"},"modified":"2016-12-14T16:26:34","modified_gmt":"2016-12-14T16:26:34","slug":"mare-baixa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/2016\/06\/05\/mare-baixa\/","title":{"rendered":"Mar\u00e9 baixa"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-header\">\n<h1>Mar\u00e9 baixa<\/h1>\n<p><span class=\"post-meta\">De\u00a0<a title=\"Artigos de Tiago Ribeiro\" href=\"http:\/\/www.apaladewalsh.com\/author\/tiago79\/\" rel=\"author\">Tiago Ribeiro<\/a>\u00a0 <span class=\"line\">\u00b7<\/span>\u00a0Em Junho 5, 2016<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"post-entry\">Como uma das mais f\u00e1ceis manobras para destruir um filme \u00e9 ench\u00ea-lo de ru\u00eddo sonoro a desprop\u00f3sito, vamos escrever umas quantas linhas sobre uma daquelas obras que conseguem o pequeno milagre de ter ru\u00eddo sonoro com todo o prop\u00f3sito. Chama-se\u00a0<strong>Tarde Demais<\/strong>\u00a0(2000), foi realizada pelo Jos\u00e9 Nascimento, e \u00e9 um not\u00e1vel exemplo de \u201ccinema imersivo\u201d com o recurso a um or\u00e7amento de cem paus.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-32044 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/screen-shot-2014-01-25-at-1-23-59-am.png\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" srcset=\"http:\/\/www.apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/screen-shot-2014-01-25-at-1-23-59-am.png 660x, http:\/\/www.apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/screen-shot-2014-01-25-at-1-23-59-am-150x91.png 150x, http:\/\/www.apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/screen-shot-2014-01-25-at-1-23-59-am-300x182.png 300x, http:\/\/www.apaladewalsh.com\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/screen-shot-2014-01-25-at-1-23-59-am-620x376.png 620x\" alt=\"Tarde Demais\" width=\"660\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p><strong>Tarde Demais<\/strong>, com argumento de Nascimento e do Jo\u00e3o Canijo, parte de uma hist\u00f3ria ocorrida em 1995, quando um grupo de pescadores morreu no Mar da Palha, \u00e1s portas de Lisboa. Embora sem martelar de forma incessante as nossas pobres consci\u00eancias, nota-se a subtil preocupa\u00e7\u00e3o de Nascimento em contrastar a selvajaria da situa\u00e7\u00e3o limite dos pescadores e a civilidade da cidade ali t\u00e3o perto, atrav\u00e9s do recurso regular aos planos da ponte Vasco da Gama e de Lisboa no horizonte, lugares de quimera inacess\u00edvel a estes homens. Em 1995, o surrealismo dever\u00e1 ter sido ainda maior: uma ponte \u201cmoderna\u00e7a\u201d em constru\u00e7\u00e3o, a Expo a ganhar forma por entre andaimes e cimentos, uma Lisboa oriental a rejuvenescer, e, ao lado, uns desgra\u00e7ados a perecerem em baixo mar.<\/p>\n<p>Quando o filme tem o seu in\u00edcio, j\u00e1 o naufr\u00e1gio da embarca\u00e7\u00e3o teve lugar, e o que se v\u00ea a partir da\u00ed e pelo menos durante metade da dura\u00e7\u00e3o do filme, \u00e9 algo que desafia a credulidade, remetendo<strong>Tarde Demais<\/strong>\u00a0para a categoria de grande filme portugu\u00eas na categoria \u201cFic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica no tri\u00e2ngulo P\u00f3voa de Santa Iria\/Alcochete\/Lisboa\u201d, com um cen\u00e1rio paisag\u00edstico a rivalizar com os falsos planetas mar\u00edtimos do\u00a0<strong>Interstellar\u00a0<\/strong>(2014) do Christopher Nolan, ainda por cima com essa pequena lembran\u00e7a do or\u00e7amento do\u00a0<strong>Tarde Demais<\/strong>\u00a0mal conseguir pagar os atacadores dos<em>\u00a0tennis<\/em>do McConaughey (o\u00a0<strong>Interstellar<\/strong>\u00a0\u00e9 o melhor filme do Nolan). Os planos de homens (e de super homens, no caso do V\u00edtor Norte) a andarem em pleno mar s\u00e3o mat\u00e9ria para se parar o filme, tirar os \u00f3culos, limp\u00e1-los com uns toalhetes, voltar a coloc\u00e1-los e retomar a vis\u00e3o do filme.<\/p>\n<div class=\"simplePullQuote right\">\n<p>Os variados sons da \u00e1gua s\u00e3o t\u00e3o cristalinos que damos por n\u00f3s a ir \u00e0 procura da toalha mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<\/div>\n<p>Nesta primeira metade do filme do Jos\u00e9, onde o Homem e a Natureza se encontram em estado primitivo (com o bet\u00e3o a um quil\u00f3metro de dist\u00e2ncia), ainda mais impressionantes que a dimens\u00e3o alien\u00edgena das imagens s\u00e3o a banda de som e a banda sonora original composta pelo Nuno Rebelo, m\u00fasico que, curiosa e ironicamente, tinha sido o autor do famoso \u201cPangea\u201d, tema oficial da Expo 1998. Os variados sons da \u00e1gua s\u00e3o t\u00e3o cristalinos que damos por n\u00f3s a ir \u00e0 procura da toalha mais pr\u00f3xima. Se isto estivesse em 7.1, ter\u00edamos, basicamente, pessoas a fugir das salas da \u201cmagia da tela\u201d ou a partirem os ecr\u00e3s da \u201cmagia do televisor\u201d, com medo de inunda\u00e7\u00f5es caseiras. E ainda h\u00e1 quem se queixe, de forma rotineira, do som dos filmes portugueses. Uma maravilha impressionista, deleitando ouvidos e restante corpo. Ainda bem que a chuva j\u00e1 se foi.<\/p>\n<p>Harmoniosamente acoplada \u00e1s sonoridades mar\u00edtimas, est\u00e1 a m\u00fasica de Nuno Rebelo, incessante, \u00e9pica, brutal. O falecido e saudoso Fernando Magalh\u00e3es, cr\u00edtico musical do<em>\u00a0P\u00fablico<\/em>, certamente que nos poderia ajudar a classificar e a enquadrar os ritmos de Rebelo, mas o que se ouve em\u00a0<strong>Tarde Demais<\/strong>\u00a0\u00e9 algo que um leigo com um m\u00ednimo de presun\u00e7\u00e3o poderia catalogar como \u201celetr\u00f3nica abstrata\u201d, que transmite uma urg\u00eancia total \u00e0s ac\u00e7\u00f5es, por m\u00ednimas que sejam, dos pescadores em luta contra \u00e1gua, frio e ostras. Que a sua constante presen\u00e7a n\u00e3o esmague tudo \u00e0 volta, \u00e9 grande elogio n\u00e3o s\u00f3 para Rebelo, como para a edi\u00e7\u00e3o de Nascimento e Jo\u00e3o Braz, capaz de, na corda bamba, tecer as diferentes sensibilidades sonoras sem perigo de derrocada. Sonoplastia de alto gabarito.<\/p>\n<p>Embora\u00a0<strong>Tarde Demais<\/strong>\u00a0perca algum do seu foco quando troca o mar pela terra, enveredando por terrenos mais convencionais de \u201cvamos salvar o pessoal!\u201d, n\u00e3o deixa de se constituir como um dos melhores filmes portugueses de \u201cg\u00e9nero\u201d, se nos \u00e9 permitida tamanha e redutora designa\u00e7\u00e3o. E para al\u00e9m desta dimens\u00e3o estritamente cinematogr\u00e1fica, h\u00e1 sempre essa curiosidade de vermos neste filme de Jos\u00e9 Nascimento uma pe\u00e7a de \u00e9poca, um epis\u00f3dio em contram\u00e3o do \u201cesp\u00edrito optimista\u201d que ainda se vivia, moderadamente, nos primeiros tempos ap\u00f3s a festa da Expo. E acabado este artigo, vamos voltar ao conserto das redes de pesca.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1qWgD6h-7Z0?feature=oembed\" width=\"620\" height=\"465\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00e9 baixa De\u00a0Tiago Ribeiro\u00a0 \u00b7\u00a0Em Junho 5, 2016 Como uma das mais f\u00e1ceis manobras para destruir um filme \u00e9 ench\u00ea-lo de ru\u00eddo sonoro a desprop\u00f3sito, vamos escrever umas quantas linhas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1737","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1737","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1737"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1737\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1743,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1737\/revisions\/1743"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1737"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1737"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/josenascimento.com\/tardedemais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1737"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}